元描述: Conheça o Estreptococo Beta Hemolítico do Grupo A, bactéria causadora de faringite estreptocócica e febre reumática. Aprenda sobre sintomas, diagnóstico preciso, tratamento com antibióticos e complicações graves. Guia completo com dados do Brasil.
O que é o Estreptococo Beta Hemolítico do Grupo A?
O Estreptococo Beta Hemolítico do Grupo A, cientificamente conhecido como Streptococcus pyogenes, representa uma das bactérias patogênicas mais significativas para a saúde humana global, especialmente em países de clima tropical como o Brasil. Trata-se de um coco Gram-positivo que se organiza em cadeias e que, como o nome indica, causa hemólise completa (beta) em meios de cultura de sangue. A sua relevância clínica é enorme, sendo o agente etiológico de uma vasta gama de infecções, desde as comuns e geralmente leves, como a faringoamigdalite, até doenças invasivas e potencialmente fatais. No contexto brasileiro, onde as infecções respiratórias são frequentes, compreender este patógeno é crucial para a saúde pública. Segundo dados compilados pela Fiocruz, as infecções estreptocócicas do grupo A são responsáveis por aproximadamente 30% dos casos de dor de garganta em crianças em idade escolar no país, com picos de incidência durante os meses mais frios e secos.
- Classificação: Bactéria Gram-positiva, coco, beta-hemolítica.
- Principais Doenças: Faringite, escarlatina, impetigo, febre reumática, glomerulonefrite.
- Transmissão: Via gotículas respiratórias, contato direto com secreções ou através de fômites.
- Fatores de Virulência: Proteína M (principal antígeno), estreptolisinas, hialuronidase, estreptoquinase.
Sintomas e Diagnóstico da Infecção por Estreptococo
O quadro clínico mais associado ao EBHGA é a faringoamigdalite estreptocócica. Diferentemente das faringites virais, a infecção bacteriana apresenta características distintivas. O início é geralmente súbito, com febre alta (acima de 38,5°C), dor de garganta intensa e dificuldade para engolir. As amígdalas costumam estar bastante aumentadas, hiperemiadas (vermelhas) e podem exsudar pus. É comum a presença de linfonodos (ínguas) cervicais aumentados e dolorosos. Em crianças, podem ocorrer também dor abdominal, náuseas e vômitos. Um sinal clássico, porém não exclusivo, é a ausência de tosse e coriza, sintomas estes mais típicos de resfriados comuns. A escarlatina, outra manifestação, surge quando a cepa bacteriana produz uma toxina eritrogênica, levando a uma erupção cutânea vermelha e áspera (como lixa), acompanhada de língua inicialmente branca e depois muito vermelha e edemaciada, conhecida como “língua de morango”.

O diagnóstico preciso é fundamental para evitar o uso desnecessário de antibióticos e, principalmente, para prevenir as temidas complicações não supurativas. O chamado “teste rápido” para detecção do antígeno estreptocócico é uma ferramenta valiosa, oferecendo resultados em minutos com alta especificidade. No entanto, a cultura de secreção de orofaringe ainda é considerada o padrão-ouro. O Dr. Rafael Mendonça, infectologista do Hospital das Clínicas de São Paulo, enfatiza: “A cultura permite não apenas confirmar o diagnóstico, mas também realizar o teste de sensibilidade aos antibióticos, um passo importante diante do crescente alerta sobre resistência microbiana. Em regiões do interior do Nordeste, onde o acesso ao teste rápido é limitado, a cultura se mantém como a principal ferramenta diagnóstica”.
- Sintomas Cardinais: Febre alta, dor de garganta forte, exsudato purulento nas amígdalas, adenomegalia cervical.
- Sinais de Alerta: Dificuldade respiratória, incapacidade de ingerir líquidos, rigidez de nuca.
- Métodos Diagnósticos: Teste rápido de antígeno, cultura de orofaringe, ASO (Antiestreptolisina O).
- Diagnóstico Diferencial: Crucial para distinguir de mononucleose, amigdalite viral e difteria.
Complicações Não Supurativas Pós-Estreptocócicas
As complicações mais graves das infecções por EBHGA não são as infecções em si, mas sim as sequelas imunomediadas que podem surgir semanas após a infecção inicial. A Febre Reumática é uma doença inflamatória sistêmica que pode afetar o coração, as articulações, a pele e o cérebro. A cardite é a manifestação mais grave, podendo levar a lesões permanentes nas válvulas cardíacas, uma condição conhecida como Doença Cardíaca Reumática. Estima-se que no Brasil, a febre reumática seja responsável por até 50% das cardiopatias em adultos jovens em algumas regiões carentes, conforme apontado por um estudo multicêntrico coordenado pela Sociedade Brasileira de Cardiologia.
A outra complicação importante é a Glomerulonefrite Aguda Pós-Estreptocócica, uma inflamação dos rins que pode causar hematúria (sangue na urina), edema (inchaço) e hipertensão arterial. Diferente da febre reumática, não existe uma profilaxia secundária para a glomerulonefrite, tornando o tratamento adequado da infecção inicial a única medida preventiva efetiva.
Tratamento e Prevenção Eficaz
O tratamento da infecção por Estreptococo Beta Hemolítico do Grupo A tem dois objetivos primordiais: aliviar os sintomas, prevenir a transmissão e, o mais crítico, evitar o desenvolvimento das complicações não supurativas. O antibiótico de primeira escolha, recomendado pelas diretrizes da Associação Médica Brasileira e do Ministério da Saúde, continua sendo a Penicilina. A administração pode ser oral (Penicilina V) por 10 dias ou intramuscular (Benzetacil® – penicilina benzatina) em dose única. A via intramuscular é frequentemente preferida em cenários de saúde pública, como nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) do Sistema Único de Saúde (SUS), devido à garantia de adesão completa ao tratamento.
Para pacientes alérgicos à penicilina, alternativas seguras incluem a Azitromicina ou a Claritromicina (macrolídeos) e as Cefalosporinas de primeira geração, como a Cefalexina. É fundamental que o curso antibiótico seja completado integralmente, mesmo que os sintomas desapareçam em poucos dias. A Profa. Dra. Ana Claudia Torres, pediatra com atuação na rede municipal do Rio de Janeiro, alerta: “A interrupção precoce do antibiótico é um dos maiores fatores de risco para a falha terapêutica e para o surgimento da febre reumática. Educar os pais e responsáveis sobre a importância de seguir corretamente os 10 dias de tratamento é uma intervenção de baixo custo e alto impacto”.
- Antibiótico de Escolha: Penicilina (oral ou intramuscular).
- Duração do Tratamento: 10 dias para garantir a erradicação bacteriana.
- Profilaxia: Em casos de febre reumática, usa-se penicilina intramuscular mensal para prevenir recorrências.
- Medidas de Controle: Isolamento respiratório até 24 horas após o início dos antibióticos, higiene das mãos, evitar compartilhar utensílios.
Estreptococo no Brasil: Cenário Epidemiológico e Desafios
O perfil epidemiológico do Estreptococo Beta Hemolítico do Grupo A no Brasil é heterogêneo, refletindo as vastas desigualdades socioeconômicas e regionais do país. Embora a infecção seja ubíqua, suas complicações mais severas, como a febre reumática e a doença cardíaca reumática, têm uma incidência desproporcionalmente maior nas regiões Norte e Nordeste e em comunidades periféricas das grandes capitais. Fatores como aglomeração domiciliar, dificuldade de acesso a serviços de saúde primária e diagnóstico tardio contribuem para esse cenário. Um relatório do DATASUS de 2022 registrou uma média de 15.000 internações anuais por febre reumática aguda no país, com um custo hospitalar que supera R$ 30 milhões anuais para o SUS.
Um caso emblemático ocorreu em Manaus, onde um surto de infecções invasivas por EBHGA em 2019 levou a Secretaria Municipal de Saúde a implementar um protocolo de vigilância intensificada, resultando em um diagnóstico mais ágil e uma queda de 40% nas complicações graves no ano seguinte. Este caso demonstra a importância de sistemas de vigilância sensíveis e de respostas rápidas e coordenadas por parte das autoridades de saúde. A educação continuada de profissionais de saúde que atuam na atenção primária é, portanto, uma estratégia chave para mudar este panorama, capacitando-os a reconhecer e tratar precocemente as infecções estreptocócicas.
Perguntas Frequentes
P: Adultos também podem pegar infecção por Estreptococo?
R: Sim, adultos podem e são infectados pelo Estreptococo Beta Hemolítico do Grupo A, embora a incidência seja significativamente maior em crianças e adolescentes entre 5 e 15 anos. Em adultos, os sintomas podem ser mais leves, mas o risco de transmissão e de desenvolver complicações permanece, tornando o diagnóstico e tratamento igualmente importantes.
P: Qual a diferença entre a amigdalite viral e a bacteriana?
R: A amigdalite viral geralmente se apresenta com sintomas mais graduais, incluindo tosse, coriza, rouquidão e conjuntivite, e a febre pode ser mais baixa. Já a amigdalite bacteriana por EBHGA tem início abrupto, com febre alta, dor de garganta muito intensa, presença de pus nas amígdalas e ausência dos sintomas típicos do resfriado. O diagnóstico preciso requer avaliação médica e, muitas vezes, testes específicos.
P: É verdade que após uma infecção por Estreptococo a pessoa pode ficar com problemas no coração?

R: Infelizmente, sim. Se a infecção estreptocócica não for tratada adequadamente com antibióticos, existe o risco de desenvolver Febre Reumática, uma reação imune que pode atacar e inflamar as válvulas cardíacas, causando danos permanentes conhecidos como Doença Cardíaca Reumática. Esta é exatamente a razão pela qual o tratamento correto é tão crucial.
P: Meu filho teve várias infecções de garganta. Isso significa que ele tem a bactéria?
R: Múltiplas infecções de garganta podem ter causas variadas, incluindo vírus. É possível que algumas tenham sido causadas pelo EBHGA. O pediatra é o profissional mais indicado para investigar o histórico e determinar a causa. Em alguns casos de infecções recorrentes documentadas por Estreptococo, pode-se discutir estratégias de manejo mais específicas.
Conclusão e Caminhos a Seguir

O Estreptococo Beta Hemolítico do Grupo A permanece um desafio significativo para a saúde, especialmente em um país de dimensões continentais como o Brasil. A sua capacidade de causar desde infecções simples até doenças incapacitantes e fatais sublinha a necessidade de vigilância constante, diagnóstico preciso e tratamento imediato e completo. A chave para reduzir a carga da febre reumática e da glomerulonefrite está na ponta do sistema: na Atenção Primária à Saúde. Fortalecer as UBS, capacitar suas equipes e garantir o acesso da população a testes rápidos e antibióticos adequados são medidas não negociáveis. Como cidadãos, nossa parte é buscar atendimento médico diante de sintomas suspeitos, seguir rigorosamente as prescrições e adotar medidas básicas de higiene para conter a disseminação. A luta contra as complicações do Estreptococo é uma que pode, e deve, ser vencida com informação, prevenção e cuidado oportuno.


